“Desglobalização”: os riscos para a cadeia da carne bovina. 03/03/2017

 O novo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, tem gerado especulações em todas as economias do mundo, especialmente pelo slogan “América para os americanos”. Sua nova política externa busca taxar produtos importados, com o argumento de proteger a indústria e os empregos locais. Neste sentido, no fim de janeiro, Trump decidiu abandonar a Parceria Transpacífica (TPP), um dos maiores acordos comerciais da história. 

 
Antes da saída norte-americana, a TPP envolvia 12 países, responsáveis por 40% da economia mundial. Como os EUA são o segundo maior exportador de carne bovina do mundo, a saída do acordo efetivamente poderia favorecer o mercado brasileiro de carne, já que o volume exportado pelos EUA para esses países poderia ser atendido em partes pelo Brasil. 
 
Em 2016, os 11 países restantes da TPP (Japão, Austrália, Brunei, Canadá, Chile, Peru, Malásia, México, Nova Zelândia, Cingapura e Vietnã) absorveram 8,9% das exportações brasileiras de carne bovina in natura, 8,5% da de carne suína e 15,3%, da de frango, segundo dados da Secex (Secretaria de Comércio Exterior). A saída americana abre espaço para a China, que junto com Hong Kong absorve 32,2% da exportação de carne bovina, 34,7% da suína e 17% da carne de frango. O contexto de oportunidades para o Brasil é corroborado num momento em que lideranças políticas brasileiras, como o ministro Blairo Maggi, buscam estabelecer melhores relações comerciais com o mercado asiático, que podem representar outras oportunidades para o Brasil. 
 
 
Por outro lado, medidas protecionistas de médio e longo prazos podem reduzir ou até mesmo eliminar vantagens técnicas da pecuária de corte brasileira “dentro da porteira”, fator que faz o País ser tão competitivo internacionalmente. Ressalte-se que essas medidas não partem apenas dos EUA. Recentemente, a Inglaterra também decidiu romper com a União Europeia, maior acordo comercial vigente até o momento. Ainda que a Suprema Corte britânica tenha se posicionado contrariamente à saí- da, há um marco no processo de globalização. Nesse sentido, para 2017, uma das eleições mais relevantes para a economia será a da França.
Quem desponta nas pesquisas, com quase 30% das intenções de voto, é Marine Le Pen. A candidata afirma que também tirará a França da zona do euro. A China, por sua vez, é uma incógnita. Mesmo que o governo afirme que não adotará práticas protecionistas, decisões como a quantidade de carne que cada chinês consume está nas mãos de um Estado forte e não no livre mercado de demanda dos consumidores chineses. 

Eficiência 
 
Quanto mais globalizado e livre de barreiras tarifárias mais o livre será o comércio mundial, com efeitos positivos sobre os ganhos de eficiência. O movimento econômico é que cada país se especialize em setores nos quais seja mais produtivo. Dados levantados pelo Agri benchmark – no qual o Brasil é representado pelo Cepea – indicam que o custo de produção de um quilo de carne no País é um dos menores do mundo, cenário que eleva a competitividade do produto brasileiro no mercado global. 
 
Entre tantas especulações sobre o futuro, decisões como a de Trump e a trajetória cogitada para a desagregação da Europa podem trazer benefícios de curto prazo para a exportação de carne bovina. Porém, no médio e longo prazos, a “desglobalização” é perigosa para a cadeia, pois a possibilidade de barreiras tarifárias, resultado do protecionismo econômico, pode reduzir ou até mesmo eliminar a competividade brasileira dentro da porteira. Por ora, um caminho para o Brasil é buscar grandes acordos bilaterais, já que ao se limitar a exportar produtos básicos, sem se adaptar ao progresso tecnológico, o País está isolado. Neste caso, a responsabilidade não é do agronegócio, que tem salvado a economia brasileira, mas da falta de competitividade do setor industrial.
 
Fonte: Cepea – www.cepea.esalq.usp.br
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