De figurante na Índia à presidência do conselho da JBS 27/10/2017

Por Luiz Henrique Mendes | De São Paulo

Inspirado pela incursão dos Beatles no mundo da meditação transcendental, o jovem ex-monge Jeremiah O'Callaghan deixou inacabada a graduação em engenharia para uma viagem sem roteiro. Ao lado da namorada, abandonou a Irlanda em meados da década de 1970 em busca da espiritualidade oriental. A experiência talvez o credencie para enfrentar um dos desafios mais espinhosos da carreira: comandar a JBS.

Aos 64 anos, O'Callaghan completa hoje sua primeira semana como presidente do conselho de administração da empresa. Executivo de confiança da família Batista, o irlandês, mais conhecido como Jerry, assumiu a cadeira que desde maio era ocupada por Tarek Farahat.

À frente da JBS, Jerry terá de conduzir a segunda rodada de renegociação das dívidas de curto prazo da empresa. A primeira etapa, liderada pelo empresário Wesley Batista assim que as delações dele e do irmão Joesley vieram à tona, foi considerada um sucesso. No olho do furacão, a JBS conseguiu em julho rolar um passivo de mais de R$ 20 bilhões, com o compromisso de vender ativos, angariar R$ 6 bilhões e assim reduzir a dívida drasticamente.

No entanto, o acordo de estabilização da dívida com os bancos vence em julho de 2018. A partir daí, a JBS não tem qualquer garantia para a renovação das dívidas, o que já suscita temores na Standard & Poor's (S&P). A questão é que, desde setembro, os irmãos Batista estão presos. Agora, caberá ao time de executivos comandado por Jerry realizar as negociações.

A interlocutores, o irlandês nascido no Condado de Cork demonstra que as lições de meditação ainda estão vivas em sua memória. "Não é algo que tira o sono dele", disse uma fonte próxima à JBS. Pelo contrário. Jerry está em casa.

Desde 2007, ano em que a JBS listou as ações na bolsa paulista, ele cuida do relacionamento da empresa com os investidores. Na condição de diretor estatutário, participou de grande parte das reuniões do conselho de administração da companhia. Sendo assim, afirmou a mesma fonte, Jerry conhece bem o ambiente onde está pisando.

A diferença de perfil é grande na comparação entre o irlandês e seu antecessor. Embora tenha sido indicado pelos Batista logo após o afastamento de Joesley, que até maio presidia o conselho da JBS, Tarek Farahat sempre foi visto como um peixe fora d'água. "Ele não tem nada a ver com a cultura da empresa. É metódico e vai e volta com as decisões", disse um ex-funcionário. No mercado, a JBS é conhecida pela rapidez com que toma medidas importantes, tais como o recente fechamento de todos frigoríficos em Mato Grosso do Sul, o segundo Estado mais importante para o negócio de carne bovina da empresa no Brasil.

A nomeação de Jerry também representou um alívio para os Batista, uma vez que Farahat gerou desconforto ao tentar negociar diretamente com o BNDES soluções para a governança da JBS e as relações com a BNDESPar - o braço de participações do banco que possui 21,3% das ações da empresa. O entendimento era que essa era uma tarefa a ser desempenhada por representantes da J&F - a holding dos Batista -, uma vez que se tratava de um diálogo entre acionistas. Na semana passada, quando anunciou a saída de Farahat, a JBS destacou que o executivo egípcio seguirá como consultor da companhia e membro de comitês internos.

Desde 2007, quando a JBS abriu o capital, Jerry cuida do relacionamento da empresa com os investidores

Em favor de Jerry, também pesa o profundo conhecimento das operações da JBS em todo o mundo, sobretudo nos Estados Unidos, onde morou entre 2009 e 2011 para cuidar do IPO, não realizado, da JBS USA. Tarek, que comandou a P&G na América Latina, tem carreira especializada em marca, distante da rotina de um abatedouro. Também por isso, o irlandês é visto como alguém que pode fazer a ponte entre a diretoria da JBS e o seu conselho de administração.

Para um analista de um grande banco nacional, poucas pessoas conhecem tão bem a JBS quanto Jerry, o que não é algo trivial. "Estamos falando da empresa de alimentos mais complexa da bolsa. Imagina que ela tem uma BRF dentro dela e ainda não é tudo", argumentou o analista lembrando da Seara, subsidiária da companhia no Brasil.

Rara, a expertise de Jerry no mercado brasileiro de carnes é fruto de um trajetória de quase 35 anos. Quando deixou a Índia em meados da década de 1970, após uma peregrinação na qual chegou a ser figurante de filmes em Bollywood, Jerry se tornou próximo da comunidade de brasileiros que vivia em Londres. Lá, conheceu uma namorada que o faria migrar para o Brasil, em 1977.

Com parcos recursos logo que chegou a São Paulo, Jerry fez de tudo um pouco, sempre explorando a língua nativa. Na capital paulista, deu aula de inglês para empresários, trabalhou com recrutamento de executivos e com marcas e patentes.

Em 1983, alguns dos principais frigoríficos de carne bovina do Brasil enxergaram a oportunidade para entrar na exportação graças à guerra das Malvinas, que tirou o espaço dos frigoríficos argentinos. Para exportar, porém, a língua inglesa é fundamental. Foi aí que Jerry entrou no mercado da carne. A namorada que o levou a migrar de Londres ao Brasil era irmã da esposa de Atílio Tinelli, que comandava o Mouran, frigorífico de Andradina (SP) que na década de 1980 era um dos mais importantes do país. Como intérprete de Tinelli, Jerry ajudou o Mouran a desenvolver as exportações de carne enlatada ("corned beef") e os primeiros embarques de carne in natura.

Com a morte de Tinelli, em 1988, Jerry foi convidado por Geraldo Bordon para reforçar a equipe do frigorífico Bordon, o maior do país no início da década de 1990. Por lá, ficou até setembro de 1995. Foi quando, em meio às dificuldades enfrentadas pelos frigoríficos exportadores devido à âncora cambial, decidiu montar uma empresa de representação.

A transição entre o Bordon e o novo negócio fez a história de Jerry cruzar com a dos Batista. Convidado para montar a área de exportações da JBS, o irlandês desistiu da carreira solo e se mudou para Goiânia, onde liderou um processo que, nos anos 2000, faria da JBS a maior exportadora de carne do planeta.

Por alguns anos, Jerry voltaria a tentar uma mudança de ares. Entre 2002 e 2007, comandou a divisão de carnes da trading Coimex, que pertence à família Coser. Seu principal fornecedor era a própria JBS. No entanto, com o paulatino avanço do Brasil no tabuleiro global da carne, a JBS ficou grandes demais para não contar com um trading própria. Assim, em 2007, Jerry foi recontratado, mas nem chegou a estruturar a trading.

No mesmo ano, o executivo acabou parando na área de relações com investidores. Ele, que sempre se valeu do idioma para crescer profissionalmente, precisou aprender outra linguagem, a do mercado de capitais. A luz do desafio de quem hoje comanda uma gigante na berlinda, a língua dos investidores parece tão inofensiva quanto o papel de figurante em Bollywood. (Colaborou Graziella Valenti)

Fonte: Valor Econômico
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